Refração em crianças pré-verbais: diretriz e recomendações

Para Pacientes

A deficiência visual em crianças pode afetar gravemente os resultados e desempenhos educacionais, contribuir para a baixa autoestima e comprometer seu potencial socioeconômico futuro. Estima-se que 40% das crianças sejam cegas devido a condições oculares que poderiam ter sido evitadas ou tratadas. 

Dentre as principais condições que afetam o desenvolvimento visual normal, sendo assim, potencialmente ambliogênicas, estão a catarata, a retinopatia da prematuridade, as anomalias oculares congênitas e os erros refracionais não corrigidos adequadamente. 

Em pacientes com ambliopia refrativa (que afeta de 1 a 4% da população pediátrica), podemos lançar mão de tratamentos com óculos e oclusão (conforme protocolos de oclusão) até a idade de 10 anos. Portanto, o oftalmologista tem papel fundamental no sucesso do tratamento da ambliopia, por meio do manejo adequado em um período sensível para o desenvolvimento visual: a primeira infância. 

Para auxiliar na prescrição correta das lentes para crianças pré-verbais ( 0 a 3 anos de idade), a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP) desenvolveu, em 2007, uma diretriz sobre a prescrição nessa faixa etária. Por volta dos 4 anos de idade, a criança já pode colaborar durante a realização dos testes subjetivos, contribuindo para a decisão sobre a melhor correção a ser prescrita. 

É importante destacar que esse consenso é baseado em estudos da American Academy of Ophthalmology (AAO) e foi adaptado pela SBOP para adequação à realidade brasileira. Assim, essas sugestões podem ser modificadas dependendo do caso em questão e de demais dados clínicos do paciente. 

Dessa forma, a SBOP sugere que sejam prescritos óculos para crianças pré-verbais nos seguintes casos: 

1º Crianças portadoras de MIOPIA (sem anisometropia) 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus de – 4,00 Dioptrias (D) ou maiores 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus de – 3,00 D ou maiores 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus de – 2,50 D ou maiores 

2º Crianças com HIPERMETROPIA (sem anisometropia e ortofórica) 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus de + 6,00 D ou maiores 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus de + 5,00 D ou maiores 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus de + 5,00 D ou maiores 

• Reduzir a prescrição final de 1,00 a 2,00 D 

3º Crianças com HIPERMETROPIA com ET acomodativo de aproximadamente 30 Dioptrias Prismáticas 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus maiores que + 2,00 D 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus maiores de + 2,00 D 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus maiores de + 1,50 D 

• Prescrever toda a refração sob cicloplegia. Se maior que 3,00 D pode diminuir em 0,50 D a refração final. 

4º Crianças com ASTIGMATISMO (sem anisometropia) 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus maiores do que 2,50 D 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus maiores do que 2,50 D 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus maiores do que 2,00 D 

Se houver astigmatismo oblíquo, que compromete mais o desenvolvimento visual, devem ser corrigidos graus a partir de 1,50 D. 

5º Crianças portadoras de ANISOMETROPIA HIPERMETRÓPICA 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus de + 2,00 D ou maiores 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus de + 1,50 D ou maiores 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus de + 1,50 D ou maiores 

6º Crianças portadoras de ANISOMETROPIA MIÓPICA 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus de – 2,50 D ou maiores 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus de – 2,50 D ou maiores 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus de – 2,50 D ou maiores 

7º Crianças portadoras de ANISOMETROPIA ASTIGMÁTICA 

• Com idades entre 0 e 1 ano: corrigir graus 2,00 D ou maiores 

• Com idades entre 1 e 2 anos: corrigir graus de 1,50 D ou maiores 

• Com idades entre 2 e 3 anos: corrigir graus de 1,50 D ou maiores 

A SBOP também traz outras recomendações práticas como a prescrição de lentes endurecidas inquebráveis, como o policarbonato (grande resistência ao impacto e baixa resistência a riscos) para pacientes com visão monocular, visando minimizar o risco de traumatismo no olho único que tem visão. 

Além disso, reforça a necessidade da proteção dos olhos das crianças com o uso de óculos com filtros protetores contra a fototoxicidade gerada pela emissão de radiações UVA/UVB provenientes da atmosfera e dos aparelhos emissores de ondas eletromagnéticas (computadores, TVs, celulares, laptops, fornos de micro-ondas, iluminação doméstica por luzes frias ou azuladas), que são equipamentos de uso comum no dia a dia. A proteção deve ser estimulada pelos oftalmologistas, conscientizando os pais e cuidadores, visto que essas fontes de radiação, a longo prazo, podem predispor à formação de catarata e DMRI. 

Referências 

Burton MJ, Ramke J, Marques AP, Bourne RRA, Congdon N, Jones I, et al. The Lancet Global Health Commission on Global Eye Health: vision beyond 2020 [Supplementary appendix 1]. The Lancet Global Health. 2021 Apr;9(4):e489–551. 

Park SH. Current Management of Childhood Amblyopia. Korean J Ophthalmol. 2019 Dec;33(6):557-568. 

Tartarella MB, Ferreira RC, Verçosa IMC, Fortes Filho JB. Recomendações sobre refração em crianças pré-verbais. eOftalmo. 2016;2(3):1-5. 10.17545/e-oftalmo.cbo/2016.60

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