Retinopatia diabética: afinal, do que se trata?

Você sabe o que é retinopatia diabética? Sabe como pode afetar a sua visão? 

Leia este artigo para saber mais sobre esse assunto que compromete tanto a saúde ocular de pessoas por todo o mundo! 

O diabetes, de maneira resumida, é uma doença sistêmica, crônica, secundária a alterações no nível de açúcar (glicose) do sangue e também de insulina, hormônio produzido e secretado pelo pâncreas. Há dois tipos de diabetes: o tipo 1, que é menos comum em nosso meio e responsável por 5 a 10% dos casos; neste caso, há deficiência na produção de insulina, hormônio fundamental para que as nossas células recebam a glicose que está em nosso sangue. Consequentemente, a baixa produção de insulina acarreta em altos níveis de açúcar no sangue (hiperglicemia) de forma aguda e grave, levando à emergência médica denominada cetoacidose diabética. Em geral, o diagnóstico é realizado na infância, na adolescência, ou na vida adulta jovem. 

Já o diabetes tipo 2, que é o mais prevalente em nosso meio, é secundário a resistência à insulina; em outras palavras, o nível de produção da insulina é normal (ao menos no início do quadro), porém ela se torna incapaz de proporcionar de forma eficaz a entrada da glicose em nossas células, levando a manutenção de estado hiperglicêmico. Esta hiperglicemia crônica observada no diabetes propicia disfunções vasculares, ou seja, o excesso de glicose no sangue lesa e afeta a qualidade dos vasos sanguíneos distribuídos por todo o corpo, em especial nos rins, no sistema nervoso central, no coração, nas extremidades do nosso corpo como mãos e pés, e na retina. O diabetes tipo 2, em geral, manifesta-se na vida adulta e apresenta evolução gradual e crônica, sendo por muitas vezes assintomático e detectado apenas em exames médicos de rotina. A obesidade, o sedentarismo e a dieta hipercalórica são os principais fatores de risco para a doença.

E o que é retinopatia diabética e como afeta a visão? 

A retinopatia diabética, como o próprio nome nos diz, é a doença da retina secundária ao diabetes. A retina é o tecido responsável pela formação das imagens, sendo portanto estrutura nobre e fundamental para uma visão de qualidade. Sendo assim, a retinopatia diabética é uma afecção ocular grave e que pode ter grande impacto na qualidade de visão dos pacientes, sendo importante causa de cegueira irreversível em nosso meio. 

No Brasil, há cerca de 14 milhões de brasileiros diabéticos, e para 2025 projeta-se que esse número aumente para quase 20 milhões. Considerando-se que, atualmente, 4 milhões de brasileiros têm algum nível de retinopatia diabética, dos quais 1 milhão estão em risco de cegueira, as projeções futuras são alarmantes. 

Os fatores mais relacionados ao desenvolvimento da retinopatia diabética são (1) tempo de doença, e (2) descontrole da taxa de açúcar no sangue (glicemia). Sendo assim, como os portadores de diabetes tipo 1 costumam apresentar curso mais longo da doença (geralmente desde a juventude), são eles que apresentam-se ao diagnóstico com quadros mais graves da retinopatia. 

Além disso, a hipertensão arterial sistêmica também é fator que contribui para casos mais graves de retinopatia diabética, já que também é uma doença que afeta os vasos sanguíneos.

Fatores de risco para a retinopatia diabética: 

⁃ Descontrole glicêmico: Hemoglobina glicada fora do alvo de tratamento (>7%); 

⁃ Tempo de doença: Quanto mais longo o diabetes, maior risco de casos graves de retinopatia diabética; 

⁃ Hipertensão arterial sistêmica;

⁃ Dislipidemia: alta ingesta de gorduras e colesterol; 

⁃ Obesidade;

⁃ Sedentarismo: propicia o descontrole glicemico e a obesidade.

Quais os principais sintomas da retinopatia diabética? 

Nos quadros iniciais, a retinopatia diabética costuma ser assintomática, sendo diagnosticada apenas ao exame de fundo de olho ou mapeamento de retina realizados durante consulta oftalmológica. Todavia, alguns sintomas podem aparecer nos estágios moderados a avançados da doença, sendo os principais: 

⁃ Embaçamento visual; 

⁃ Perda de visão central ou periférica; 

⁃ Distorção das imagens; 

⁃ Manchas na visão.

Tipos de retinopatia diabética 

Há dois tipos principais de retinopatia diabética: o tipo não-proliferativa (RDNP) e o tipo proliferativa (RDP). A RDNP é uma fase inicial da retinopatia diabética em que ocorre lesões vasculares, com surgimento de áreas de hemorragia e extravasamento de liquido na retina, porém não se observam neovasos. Já na fase de RDP, que é uma fase mais avançada e grave da retinopatia diabética, há maior risco de comprometimento da visão do paciente. Neste estágio, a lesão nos vasos retinianos é mais avançada, gerando isquemia crônica (ausência do aporte sanguíneo ao tecido) em múltiplas regiões da retina. Consequentemente, há estimulo endógeno para produção de novos vasos (neovasos; geralmente anômalos, mal formados), o qual envolve a liberação do conhecido fator de crescimento endotelial (VEGF). Tais vasos, por serem anormais e frágeis, podem ocasionar sangramentos na retina e/ou no vítreo, além de propiciar a formação de áreas de fibrose e de tecido fibrovascular que, ao se contraírem e encurtarem, promovem descolamento da retina por tração, uma das complicações mais graves da retinopatia diabética, podendo levar a cegueira irreversível.

Tratamentos 

O tratamento para cada caso depende do estágio da doença. O médico oftalmologista poderá indicar qual o melhor tratamento em cada caso. Nos estágios inicias de retinopatia diabética, recomenda-se um melhor controle do diabetes, tanto medicamentoso através de fármacos hipoglicemiantes ou a própria insulina, como também por meio de dieta e da pratica de exercícios físicos regulares. O tratamento com fotocoagulação a laser também pode ser indicado pelo oftalmologista. A fotocoagulação é um procedimento realizado ambulatorialmente, no qual o médico aplica laser nas 

regiões de retina isquémica. Essa abordagem é capaz de estabilizar a retinopatia diabética e evitar a progressão para casos mais graves. 

Nos casos em que há presença de edema na região retiniana chamada mácula – uma das principais causas de embaçamento visual no paciente diabético –, é possível utilizar medicações que reduzem o nível de inflamação, reduzindo por consequência o edema nesta região. Estas medicações atuam inibindo a ação da molécula VEGF, citada anteriormente, e são aplicadas dentro do olho, mais especificamente no vítreo, espécie de “gel” que temos em nossos olhos. Esta modalidade de tratamento é denominada injeção intravítrea com anti-VEGF, sendo alguns exemplos disponíveis no Brasil: bevacizumabe (Avastin®), ranibizumabe (Lucentis®), e aflibercept (Eylea®). 

Caso ocorram complicações relacionadas a retinopatia diabética como hemorragia vítrea prolongada ou de grande monta, ou descolamento tracional de retina, que é quando a retina se descola do fundo do olho tracionada pelo tecido fibrovascular formado, é necessária cirurgia para resolução do quadro, sendo esta denominada vitrectomia.

Melhor prevenir do que remediar 

Este é um dos pilares da retinopatia diabética e do diabetes em si. Muitas vezes os casos de retinopatia diabética são graves e irreversíveis, com complicações que, mesmo adequadamente tratadas, reservam prognóstico visual muito desfavorável para o paciente. Além disso, estamos falando da principal causa de cegueira em adultos de 20 a 74 anos, população enconomicamente ativa. Sendo assim, uma das principais prevenções da retinopatia diabética é a realização do exame de fundo de olho (fundoscopia) de forma regular. Em pacientes com diabetes tipo 1, este exame é fundamental após 5 anos do diagnóstico; já em pacientes com diabetes tipo 2, recomenda-se a avaliação da retina o quanto antes. Após esta primeira avaliação, é muito importante manter visitas anuais ao oftalmologista para controle e acompanhamento do quadro.

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